DIA DO PLANETA TERRA – 22 DE ABRIL:
DAR VOZ À CAUSA DA JUSTIÇA

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Irmã Karen J. Hartman, S.F.P.

Nestes tempos que correm ouvimos falar muito sobre a mudança do clima. Há prós e contras sobre esse tópico que continua evoluindo. Cientistas, ecologistas e teólogos estudaram os muitos aspectos desse fenômeno e todos concluíram que nós, individualmente e enquanto comunidade, temos uma responsabilidade a cumprir em propiciar mudanças que respeitem a vida e protejam o planeta para as gerações futuras. Para comemorar o Dia do Planeta Terra gostaria de partilhar algumas citações e idéias sobre a mudança climática.

Inclusive o Papa falou sobre ela, e a sua reflexão nos dá elementos para a nossa consideração: 
A preservação do meio ambiente, a promoção do desenvolvimento sustentável e, em particular, a atenção para com a mudança climática são assuntos de grave preocupação para a inteira família humana. Nenhuma nação ou setor de negócios pode ignorar as implicações éticas presentes em todo e qualquer desenvolvimento econômico e social. Com crescente clareza, a pesquisa científica tem demonstrado que, hoje, o impacto das atividades humanas, em qualquer lugar ou região, pode afetar o mundo inteiro.
                           -Papa Bento XVI, Mensagem aos líderes religiosos e científicos, 1º de setembro de 2007

Na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz em janeiro de 2008 diz o Papa:
Prudência não significa deixar de aceitar responsabilidades e adiar decisões; significa empenhar-se em fazer decisões conjuntamente, depois de considerar responsavelmente a direção a ser assumida, bem como as decisões, na intenção de fortalecer a aliança entre os seres humanos e o meio ambiente, a qual deve espelhar o amor criador de Deus, do qual todos procedemos e para o qual caminhamos.
                        - Papa Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, janeiro de 2008

Em outra ocasião Bento XVI diz:
Hoje, o grande dom da Criação de Deus se encontra exposto a graves perigos e estilos de vida que podem degradá-lo. A poluição ambiental está tornando particularmente insustentável a vida dos pobres do mundo. Em diálogo com cristãos de várias confissões, precisamos empenhar-nos em cuidar da criação e partilhar seus recursos em solidariedade.”
                       - Papa Bento XVI , Mensagem, 27 de agosto de 2006

Os desafios da mudança de clima proporcionam uma oportuna ocasião para uma educação capaz de motivar mudanças em nossas ações e assim melhorarmos o nosso cuidado para com a integridade da criação de Deus, que nos foi confiada. Nossa tradição católica e os recentes documentos da Igreja nos chamam à humildade, reconhecendo a nossa interdependência com todas as formas de vida. Estamos sendo convidados a mudar em vários níveis: em nossas opções pessoais, em nossas paróquias e outras instituições baseadas na fé, e na nossa defesa de políticas que apoiem uma energia sustentável e um futuro para a integridade do meio ambiente. Enquanto crescemos na compreensão do nosso papel como seres humanos na rede da vida, podemos ser conduzidos pela máxima escritural de “agir com justiça, amar com ternura e caminhar humildemente com o nosso Deus.” (Miquéias 6:8).

O humano ecológico – um convite à humildade*

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Nosso próprio nome enquanto seres humanos deriva da raíz partilhada com o “húmus”, ou seja, a camada superficial do solo. Nossos corpos são feitos de terra; das vitaminas e dos minerais que as plantas captam do solo e do ar. O ritual da Quarta-Feira de Cinzas nos lembra que “somos pó e ao pó retornaremos”. A humildade nos convida a reconhecer que fazemos parte da rede da vida e que não somos independentes dela. O que acontece com todos os sistemas ecológicos têm um impacto também sobre nós e tudo o que despejamos no ar, no solo e na água passam a fazer parte de nós mesmos.

A humildade também nos convida a reconhecer a nossa devida função enquanto humanos e a importância de cada membro, de cada parte da rede da vida que é necessária para o funcionamento do todo, porque o conjunto de todas as partes presta serviço às demais. O termo “serviços de ecossistema” foi estabelecido pelos ecologistas para descrever esses “serviços gratuitos”. Os ecossistemas (como por exemplo, as florestas, os lagos, os pantanais, etc.) nos oferecem inúmeros serviços que incluem: a purificação do ar e da água, o atenuamento das enchentes e das secas, a geração e a preservação do solo, a detoxificação e a decomposição do lixo, a reciclagem e o movimento dos nutrientes das plantas no solo, a dispersão das sementes, a polinização, o controle das pragas, a manutenção da biodiversidade, além de proporcionar a beleza estética que enaltece o espírito humano. Preservar os ecossistemas naturais e, com isso, o proporcionamento desses serviços gratuitos nos ajuda a garantir o bem comum e reduzir o impacto das mudanças climáticas a nível global.

A humildade necessária para lidarmos com a mudança climática global

Nos últimos 150 anos, desde o início da Revolução Industrial, a queima de combustíveis fósseis (e o escapamento do gás carbônico preservado em plantas mortas, no subsolo) e o desmatamento e a urbanização que eliminam as plantas que absorvem carbono têm aumentado enormemente a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera. Como o dióxido de carbono (gás carbônico) retém calor, o aumento da densidade do “cobertor” em volta do globo terrestre está aumentando o aquecimento global. Meios de se intensificar a fotossíntese das plantas (como por exemplo preservar as florestas e outros ecossistemas, e diminuir o “esparrame urbano”), de reduzir o uso de combustível fóssil (utilizando fontes renováveis de energia como o vento, a energia solar e a energia geotérmica), são ações com que podemos combater a mudança climática global.

Temos uma responsabilidade moral, pois o impacto da mudança do clima afeta os pobres de maneira desproporcional, tanto localmente quanto a nível global. Juntamente com o aumento da temperatura, são previstas mais chuvas pesadas, mais temporais, enchentes, secas e outros fenômenos como o embranquecimento dos recifes de coral. O conjunto desses desastres ecológicos estão causando um grande impacto na agricultura, nos recursos naturais, nos transportes e na saúde. O Painel Intergovernamental sobre as Mudanças do Clima (IPCC), já no seu relatório de 2001, enfatizou a dimensão da injustiça ambiental, declarando que “Os povos com menos recursos são os que têm a menor capacidade de se adaptar e são os mais vulneráveis”

A nível global, são as pessoas mais pobres que sofrem mais devido à sua maior exposição ao impacto do calor porque são mais sensíveis a ele, sendo menos resistentes, e têm menor capacidade de se recuperar ou habilidade para enfrentá-lo. Com o aumento da temperatura e o derretimento das capas de gelo dos polos estão elevando o nível dos oceanos. Esse fato por sua vez já está causando grande impacto nas comunidades das pequenas ilhas e à beira do mar por perda de terra, inundação das nascentes com água salobra e inclementes temporais. Poderíamos aqui enumerar inteiras culturas que irão desaparecer quando o seu habitat natural desaparecer no fundo do mar.

Caminhar com humildade mas atuando com justiça

Ações nos âmbitos do transporte, da alimentação e da conservação de energia constituem motivos para enfrentar a mudança do clima.

  1. Opções quanto aos transportes:
    – Estabelecer metas para reduzir a quantidade de viagens individuais (incluídos o transporte público, a partilha de condução entre vizinhos, o uso da bicicleta ou a caminhada);
    – Defender abertamente o uso do transporte público;
    – Considerar a compra ou aluguel de veículos que economizem combustível, usem biodiesel ou sejam híbrido-elétricos;
    – Manter os pneus dos veículos devidamente calibrados.
  2. Alimentação e uso da terra:
    – As opções alimentares são diretamente ligadas ao uso de combustível fóssil e da terra;
    – Consumir alimentos da estação, produzidos local ou regionalmente, sem agrotóxicos;
    – Reduzir o consumo de carne também ajuda a reduzir o uso dos recursos naturais;
    – Usar produtos obtidos mediante a prática do Comércio Justo (Fair Trade);
    – Minimizar o desperdício e o consumo de produtos em embalagens descartáveis;
    – Usar acessórios de cozinha e mesa e outros utensílios que sejam laváveis e reusáveis;
    – Usar água engarrafada somente quando estritamente necessário;
    – Na horta e no jardim, escolher plantas nativas da região;
    – Ao cultivar, manter áreas naturais e minimizar o uso de fertilizantes.
  3. Conservação de energia:
    – Dentro de casa, usar lâmpadas fluorescentes compactas ou circulares e, fora, usar sensores de movimento que ligam e desligam as lâmpadas automaticamente;
    – Instalar painéis solares para obter energia alternativa às fontes não renováveis;
    – Usar revestimentos de piso fabricados com materiais recicláveis.

Agir com Justiça e Amar a Criação

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Individualmente, podemos assumir de imediato algumas dessas opções, que são condizentes com um estilo de vida mais simples. Defender a justiça social e a ecologia no momento da elaboração de políticas públicas poderá garantir a existência de incentivos sistêmicos para promover as mudanças necessárias de modo que a criação seja melhor cuidada. Ser uma voz profética que denuncie o impacto do desastre ecológico sobre a vida dos pobres, da comunidade global e das gerações futuras é um papel importante que podemos desempenhar para reduzir a mudança climática.

É muito fácil desanimar diante da imensidão dos desafios que temos pela frente. Mas precisamos seguir adiante nos apoiando uns aos outros e confiando em Deus, que continua nos incentivando a mudar o nosso modo de viver, para revidar os impactos da mudança climática global. Com humildade, cientes do nosso lugar na rede da vida, convencidos de que as nossas interconexões com todas as formas de vida através do planeta e das gerações, possamos nós responder ao chamado de Deus de amar a criação com ternura e agir pela justiça ecossocial.

*Estas informações foram por mim anotatas durante o seminário de Irmã Leanne M. Jablonske, FMI, da congregação marianista, doutorada em ecologia e ciência da mudança climática e ministra de pastoral. Ela é diretora do Centro de Educação Ambiental Marianista em Dayton, Ohio.

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