Uma Experiência Abençoada
Irmã Arlene Bourquin
Junho de 2010
Há vários anos tenho voluntariado junto à organização teatral Victoria Theater Association, em Dayton, Ohio. Em troca do tempo que passo vendendo ingressos, distribuindo os programas e indicando ao público as suas poltronas, posso ver de graca o evento em cartaz, e com isso acabo assistindo muitos espetáculos, palestras e concertos pelos quais não teria condições de pagar. Esse serviço é também um ministério para mim: acolher com um sorriso as pessoas que vão entrado, estressadas, e desejar a elas um bom divertimento. No final de abril, a Universidade de Dayton (UD) promoveu naquele teatro uma palestra muito especial do renomado escritor Elie Wiesel, professor da Universidade de Boston, ativista político, detentor do Nobel da Paz de 1986 pela sua obra sobre o Holocausto, do qual é sobrevivente. Assim que sua palestra foi anunciada, procurei voluntariar para aquele dia. Designaram-me a entrada da platéia mais próxima do palco, minha área de trabalho preferida. Chegado o grande dia, ainda indicava os lugares ao público quando um senhor muito bem vestido veio perguntar-me como poderia chegar ao camarim. Expliquei que não era permitido ao público ter acesso da platéia à coxia, mas ele se apresentou. Era Daniel Curran, o reitor da universidade. Um tanto embaraçada, passei a ele a informação que precisava. Para mim, havia sido uma lição de humildade. Pouco depois daquele encontro, o diretor de segurança se aproximou para dizer que o reitor iria ficar entrando e saindo pela “minha” porta e avisar que haveria um guarda de cada lado do palco. Só depois soube que havia muitos agentes de segurança à paisana no teatro aquela noite. Fiquei pensando se o ilustre orador havia recebido alguma ameaça, principalmente quando notei que o segurança no palco, diante de mim, estava armado. Mesmo antes da palestra, a noite já estava sendo muito interessante.
Depois de ter sido introduzido, quando Elie Wiesel entrou no palco, senti lágrimas nos olhos. Sabia instintivamente que estava diante de um santo homem. Havia lido seus livros: a trilogia “Noite”, “Amanhecer” e “Dia” ainda na década de 1960, pouco depois de terem sido publicados, nos quais ele descreve sua experiência do campo de concentração nazista aos 13 anos de idade. Ele começou a partilhar conosco suas experiências com uma voz doce e delicada, Entre as muitas coisas que disse, lembro-me de uma frase em particular: “. . . o pior terrorista é quem acredita possuir todas as respostas, e inclusive tenta convencer os outros que sabe o que se passa na mente de Deus!” Enquanto a multidão se dispersava, encontrei um senhor de rosto triste que me perguntou se podia ir ver o orador. Aproximando-me, disse-lhe que sentia muito, mas que não lhe iria ser possível encontrar-se com ele. E o homem me contou um pouquinho de sua vida. Era um americano que havia pertencido às forças aliadas que deram início à libertação da Europa em 1945, quanto tinha 22 anos. Observei quanta dor havia em seus olhos e me lembrei dos horrores que jovens como ele haviam visto. Coisas que ninguém deveria ver nunca. Ele tocou profundamente o meu coração quando disse: “As pessoas que, como eu, viram o holocausto, estão morrendo. Em pouco tempo não haverá mais testemunhas oculares.” Sugeri que procurasse contactar Elie Wiesel através do editor de seus livros, ou que visitasse o site dele na Internet. Com isso, seu rosto parecia ter se relaxado um pouco e seus olhos se iluminaram com a possibilidade de conseguir um contato. Reconheci diante de mim outro santo homem, transformado simplesmente pela sua própria bondade. |


