Relatório e Algumas Reflexões Sobre a Assembléia de 2009 da Conferência das líderes Religiosas (LCWR)

Vista da Catedral de St. Louis, que subsistiu o furacão Katrina

A Assembléia Anual da Conferência das Líderes Religiosas dos Estados Unidos (LCWR) teve lugar em Nova Orleans, na Louisiana, de 11-14 de agosto de 2009. Mais de 800 líderes dialogaram com as palestrantes e entre si sobre alguns dos assuntos críticos enfrentados pelas congregações católicas, pela Igreja Católica e pelo povo por elas servido nos Estados Unidos.  O tema “Mulheres do Espírito: Criar no Caos” foi escolhido devido à grande devastação de Nova Orleans pelo furacão Katrina em 2005.  De fato, a LCWR foi co-patrocinadora de um projeto de recuperação que levantou mais de 7 milhões de dólares, permitindo assim que as religiosas locais permanecessem na cidade arruinada e voltassem a trabalhar em educação, serviços de saúde e assistência social.

 
Mulheres do Espírito: Criar no Caos


Cokie Roberts

Antes do ritual de abertura da Assembléia, mais de 250 membros da Conferência visitaram os locais de trabalho e de moradia das religiosas católicas destruídos pelo furacão.  Foi muito solene, belo e inspirador, iniciado com uma chamada das Irmãs vindas das 14 regiões da LCWR.  À medida que o número de cada região ia sendo chamado, suas respectivas Irmãs se levantavam e se reuniam na periferia do grande salão.  Depois que todas foram chamadas, nos demos as mãos, formando um grande círculo e cantamos o hino: 

Guia meus passos, Senhor, enquanto estiver nesta competição, porque não quero ficar nesta corrida em vão.

Na segunda estrofe mudamos “meus” para “nossos” passos e colocamos as mãos sobre os ombros umas das outras para demonstrar de maneira palpável o sentimento de solidariedade entre todas as presentes.

A jornalista Cokie Roberts, do noticiário televisivo ABC News e analista da Rádio Pública Nacional (NPR), nascida em Nova Orleans, foi a nossa oradora oficial.  Educada por religiosas, as Irmãs do Sagrado Coração, ela nos ofereceu uma perspectiva histórica das contribuições criativas e da elasticidade das religiosas para os Estados Unidos.  Sua mãe, a congressista Lindy Boggs, foi embaixadora ao Vaticano no governo Clinton, o que lhe dá certos pontos de vista especiais.  Cokie Roberts se referiu ao estudo em andamento ordenado pelo Vaticano sobre a qualidade de vida das religiosas católicas, dizendo: “mesmo não sendo qualificada para falar sobre a qualidade de vida dessas mulheres, eu poderia falar com autoridade sobre a qualidade de vida daqueles que foram servidos por elas”, e assim endossou nitidamente a espiritualidade e a missão das Irmãs americanas de hoje em dia.

O corpo da Assembléia discutiu esse estudo e também a investigação separada sobre a postura da LCWR em assuntos pertinentes à doutrina da Igreja, que está sendo conduzida pela Congregação para a Doutrina da Fé.  As líderes da LCWR observaram que esse estudo sobre as suas vidas está atraindo grande atenção nacional e internacionalmente e oferecendo a elas uma oportunidade para explicar a essência e o foco da vida religiosa não somente para as pessoas que estão conduzindo as inquirições, como também ao público em geral.  Irmã Tiziana relata sobre a sua experiência no início deste número.

Durante a apresentação de um estudo nacional recentemente realizado sobre as Vocações à Vida Religiosa, o Irmão Paul Bednarczyk, CSC e a Irmã Mary Bendyna, RSM enfatizaram a necessidade de ajudar o público leigo a compreender mais e melhor a Vida Religiosa.  Irmão Paul Bednarczyk, diretor executivo da Conferência Nacional das Vocações Religiosas e Irmã Mary Bendyna, diretora executiva do Centro de Pesquisa Aplicada para o Apostolado, falaram à Assembléia sobre as descobertas desses estudos realizados nacionalmente por essas duas organizações nos últimos dois anos, sobre a situação das vocações à vida religiosa.  Entre essas descobertas, constam as significativas lacunas generacionais, especialmente entre a Geração do Milênio (nascidos em 1982 e depois) e a Geração do Vaticano II (nascidos entre 1943 e 1960), especialmente em questões da vida comunitária, quanto ao uso do hábito religioso, e os estilos e tipos de oração.  Adicionalmente:

• Os novos membros são atraídos à vida religiosa principalmente pelo senso do chamado (78%) e pelo desejo de crescimento espiritual (74%).  Mas mais do que qualquer coisa, foram atraídos ao seu instituto religioso pelo exemplo de seus membros e especialmente pelo seu senso de alegria (85%).

• Os mais jovens entrevistados tenderam a dizer, mais do que os entrevistados de mais idade, que foram atraídos para a vida religiosa pelo seu desejo de se empenharem mais no serviço da Igreja e do seu próprio instituto devido à sua fidelidade à Igreja.

• Os membros mais jovens entraram em contato com o instituto ao qual aderiram por uma variedade de meios: mediante a recomendação de algum amigo ou conselheiro, frequentemente um padre; mediante informações colhidas na internet, isto é, muitos encontraram informações sobre o instituto online; mediante uma experiência direta junto ao instituto e seus membros (em relacionamento de trabalho com um membro ou através de uma pessoa amiga do instituto); e mediante as experiências de “vir e ver”: retiros de discernimento e outras oportunidades de passar algum tempo com seus membros, um fator particularmente influente.

Durante o banquete conclusivo da Assembléia, a LCWR ofereceu o Prêmio de Liderança Excepcional a duas Irmãs:

Irmã Sharon Holland, IHM, a canonista que serviu por 21 anos na Congregação para Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, uma das mulheres mais proeminentes no Vaticano, que trabalhou com nossa Congregação por muitos anos.

Irmã Helen Maher Garvey, BVM, que serviu em liderança na sua própria Congregação das Beneditinas da Virgem Maria, foi presidente da LCWR, e atuou como delegada dos Estados Unidos à União Internacional de Superiores Gerais, além de ter sido a curadora da exposição “As Mulheres e o Espírito: Irmãs Católicas na América”, que esteve em Cincinnati.

Participei desta Assembléia da LCWR com as Irmãs Tiziana Merletti, Marilyn Trowbridge e Anna Ingoglia.  Senti uma profunda solidariedade com nossas Irmãs e as outras religiosas presentes.  Fico grata pela experiência e pelos preciosos momentos que passamos juntas.

- Irmã Joanne Schuster, SFP, CCA–EUA

REFLEXÕES SOBRE A ASSEMBLÉIA DA LCWR . . .

Uma bela vista noturna do Rio Mississippi

Mais um Passo no nosso Carisma de Cura: Trabalhar por uma Igreja Mais Inclusiva, Compreensiva, Compassiva e Atenciosa

À medida em que íamos recebendo a atualização sobre a Visitação Apostólica e Avaliação Doutrinal, experimentei sentimentos contrastantes.  Senti-me triste porque essas tarefas não são fáceis de serem cumpridas, especialmente por não ter havido nenhuma conversação ou consulta anterior entre os oficiais do Vaticano e a presidência da LCWR para que o processo corresse com a maior facilidade possível.

Também me senti perplexa e constrangida por não termos recebido nenhuma notificação prévia nem qualquer colaboração por parte do Vaticano a respeito desses seus projetos. Teria sido útil e colegial, especialmente considerando que já estamos vivendo tempos difíceis:

• Tempos de muitos desafios para encontrar novos meios de estabelecer um diálogo aberto entre nossos membros e as novas gerações;

• Tempos de tensão entre a vida pessoal e o bem comum em cada grupo e instituição;

• Tempos de violência e guerras quando o contato com pessoas de outras denominações cristãs e de outras religiões é urgente e essencial;

• Tempos de crise econômica quando estamos tendo dificuldade em corresponder às necessidades dos nossos ministérios aos pobres.

Embora sejamos chamadas mediante nosso voto de obediência a ser responsáveis perante o Vaticano quanto à nossa vida, foi surpreendente termos sido abordadas sem qualquer pré-aviso. Por que tanto a Visitação quanto a Avaliação Doutrinal estão acontecendo logo agora?  E por que desta maneira?  Por que estamos sendo chamadas em duas intervenções diferentes, mas tão interrelacionadas sobre a vida religiosa nos Estados Unidos?  Para quais propósitos?  Disse a mim mesma: respeitosamente discordo da maneira como a Visitação e a Avaliação Doutrinal estão acontecendo, enquanto mulher, enquanto religiosa, enquanto franciscana e inclusive enquanto canonista.

Durante estes quatro anos que tenho vivido nos Estados Unidos, aprendi a conhecer melhor tanto nossas Irmãs americanas como as religiosas de outras congregações.  Aprecio cada vez mais as contribuições que elas tem dado à vida da Igreja e à sociedade, a coragem que possuem para abraçar novos horizontes, e a sua fidelidade ao chamado a se colocarem do lado dos menos favorecidos.  Sei que serão capazes de lidar com tudo isso, mas a que preço!

No entretempo, minhas orações pessoais e o ambiente de fidelidade durante a Assembléia da LCWR conduziram-me a um lugar de esperança e confiança.  Apesar das nossas falhas humanas ouço um chamado que vem de Deus para reduzir a marcha, entrar no espaço contemplativo, trabalhar através das desilusões, dos desapontamentos, das experiências de impasse e a aceitar um outro convite: o de procurar descobrir o que será deixado para trás e o que precisará ser continuado e apoiado em tudo isso.

A Visitação Apostólica passará.  Consentiremos em preencher o questionário da segunda fase.  Receberemos a Visitante entre nós se formos escolhidas entre as Congregações que cumprirão a terceira fase.  Apoiaremos umas às outras neste esforço.  No entanto, no final de tudo, o que me parece que ficará conosco será a nossa atitude de permanecermos concentradas na visão mais ampla do futuro, com fé, compaixão e esperança.

Desde o início, nossa congregação religiosa tem funcionado como “mensageira” de uma Igreja mais inclusiva, compassiva e atenciosa.  É este o momento de assumirmos mais um passo adiante no nosso carisma de cura, e com toda a sinceridade. Queira Jesus indicar-nos, no meio de nós, como nos tornarmos cada vez mais os instrumentos do seu poder de cura entre aqueles que estão procurando uma vida melhor.  Nosso Deus de amor cuidará de todo o resto.

- Irmã Tiziana Merletti, sfp
Ministra Congregacional

Para ler em inglês as palestras realizadas durante a Assembléia da LCWR, clicar: lcwr.org