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A NOVA COSMOLOGIA:
Queridas Irmãs e caros Afiliados,
Pensar no significado deste título, a Nova Cosmologia, me remeteu ao dicionário para uma compreensno mais à risca. “Cosmologia – Do grego, ‘kosmos’ que significa o Cosmo, ordem, mundo. É o ramo da astronomia que estuda a origem, estrutura e evolução do Universo a partir da aplicação métodos científicos”. Assim, a Nova Cosmologia é um novo modo de ver e compreender o cosmo e, dentro deste a nossa mãe, a terra. Esta, segundo renomados cosmólogos e biólogos, é um planeta vivo. Gaia – como a chamavam os gregos – que articula o físico, o químico, o biológico de tal forma que seu ambiente se torna sempre benfazejo para a vida. Todos seus elementos são dosados de uma forma tão sutil e ímpar que somente um organismo vivo poderia fazê-lo. Um grito ecoa como um desafio que nos chama para a ação, que nos desaloja, questiona e aguça a nossa criatividade, pois, não obstante os aspectos cinzentos da realidade — o mal que parece tomar conta de tudo — a vida insiste em brotar como um dom de Deus. É preciso criarmos uma nova forma de ver e cuidar da VIDA, compreendendo que ela é relacional.
Niels Bohr — um dos criadores da física quântica — bem dizia que “tudo está relacionado com tudo e não existe nada fora dessa relação”. Com isto ele quer dizer para nós que temos uma relação íntima com tudo que existe no universo. Formamos, por assim dizer, uma teia, e tudo o que desconecta essa compreensão, desequilibra essa cadeia de interdepência, ou seja, rompe o princípio primordial existente no universo, que é a cooperação de todos para com todos, a lei fundamental na dinâmica da vida. A crescente consciência de que, nós seres humanos, somos profundamente integrados com o meio-ambiente que nos cerca, exige que a nossa luta pela justiça deva também incluir a luta pela ecologia, e não só a fim de assegurar a justiça para outras criaturas que não o ser humano, mas até para assegurar a justiça mais elementar de todas, a todos: um ambiente comum em que possam viver as futuras gerações. Certa vez li um pensamento muito curioso que dizia: “Eu me faço humano através do conjunto das conexões com a vida a natureza, os outros e o Divino”. Quero fazer deste pensamento um propósito, que penso ter brotado de cada SFP e afiliado presente no nosso Capítulo de Goiânia — “Gerar compaixão e esperança na comunidade da vida” — que nos convida a plantar sementes de bondade e reverência para com todo ser criado. Irmã Maria Helena Carvalho, SFP
A casa onde resido hoje, está localizada numa bela área recoberta de verde, um pequeno pulmão no meio do bairro Residencial Sonho Dourado. A poluição sonora e carbônica do constante vai e vem dos veículos que trafegam próximo a nossa casa é impressionante. Relembrando de quando residi nesta mesma área, algumas décadas atrás, a porcentagem de veículos que trafegavam por aqui não era nem dez por cento do que temos hoje. É preocupante pensar que vivemos num planeta de mudanças tão rápidas e pior ainda , mudanças que não são saudáveis nem para a Terra, nem para as criaturas que a habitam. Vivenciamos também uma situação muito preocupante nesta nossa Região Centro Oeste. Estamos perdendo uma riqueza imensa que é o Bioma Cerrado. Os incentivos federais do Projeto “Avança Brasil” que favorecem o agro-negócio e extensas plantações de monoculturas, hidroelétricas e hidrovias o estão levando a uma rápida desertificação. Participo do Grupo Bioma Cerrado, da Conferência dos Religiosos do Brasil(CRB), que faz parcerias com ONGs comprometidas na defesa do meio ambiente, na busca de alternativas de consumo responsável e de convívio não poluente com o meio, a conscientização da importância de reciclar e a aprovação de uma emenda constitucional para estabelecer o Bioma Cerrado como patrimônio nacional. Esse projeto que há 12 anos tramita no Congresso Nacional encontra a forte oposição dos grandes proprietários e empresários com interesses no agro-negócio, que só pensam em desmatar, produzir, obter lucros rapidamente, exaurir o solo e abandoná-lo. A luta é dura, mas não podemos desanimar. Com a ajuda de Deus, não foi o pequeno Davi que venceu o gigante Golias? Porque estou falando dessas coisas? Se somos parte e parcela do universo em evolução e um elo da cadeia da vida, tudo está interligado. Cada menor gesto e ação nosso tem que ver com o todo. Conhecer a realidade, estudar e ter um bom conhecimento do que seja a Nova Cosmologia é importante, mas isso pouco valerá se não colocarmos em prática esses conhecimentos para conscientizar-nos e ajudarmos os outros a compreender que fazem parte da teia da vida. O que tem isso a ver com o tema da Nova Cosmologia?
No mês de novembro do ano passado participei de um retiro na Prelazia de São Félix do Araguaia, Mato Grosso, onde trabalhei com os povos indígenas anos atrás e fiquei surpresa de ver o quanto o rio Araguaia secou. Comprovei isto vendo os índios atravessarem a pé o leito do rio, coisa que eles só faziam de canoa, dez anos atrás. O assoriamento, a poluição das nascentes e a derrubada das matas ciliares que as protegem não são respeitadas. Como agentes de transformação, participamos do sofrimento de Pachamama, a mãe Terra dos povos indigenas dos Andes Centrais da América do Sul, que agoniza com a nossa falta de cuidado. Urge libertar a Terra mediante uma verdadeira revolução no nosso relacionamento com ela. Não podemos mais aceitar o paradigma da modernidade assentado sobre a violência contra a natureza e adotar o paradigma holístico, baseado na reverência, no respeito e no cuidado pela sua biodiversidade, integridade e beleza. É urgente enfrentar o empobrecimento injusto, pois a grande maioria da humanidade se encontra abaixo do limite da pobreza. Vale dizer, é preciso nos colocarmos do lado dos excluídos, implantando um tipo de sociedade que garanta o suficiente para todos e qualidade de vida para a inteira comunidade dos seres vivos, assegurando o futuro do patrimônio natural e cultural comum. Pergunto-me o que estamos fazendo para minimizar o desastre ecológico? Que gestos estamos assumindo, concretamente? Ações falam mais do que palavras. O cuidado no consumo das coisas que diminuem a poluição, o uso responsável da energia e da água e a conscientização das pessoas com quem trabalhamos, são pequenos gestos que fazem uma diferença. Nessa perspectiva, queremos promover uma atitude otimista. A Terra pode e deve ser salva. E será salva! Ela já passou por mais de quinze grandes devastações e sempre sobreviveu, salvaguardando o principio da vida. Superaremos também os atuais impasses. Entretanto, sob uma condição: que mudemos de rumo e que troquemos de ótica. Dessa nova ótica surgirá uma nova ética de responsabilidade partilhada e de sinergia para com a Terra. Tentemos fundamentar esse nosso otimismo. Vamos ajudar, “espalhando sementes de compaixão e esperança na comunidade da vida”. Deus, sempre atuante! Irmã Anne Claire Kabore, SFP
A cosmologia é uma explicação da formação e do desenvolvimento da ordem e harmonia do universo. Temos portanto todo o direito de pensar que cada civilização, desde as mais antigas, teve sempre um conceito do universo que, em última instância, dá um sentido à sua existência. Na Grécia antiga era o platônico Demiurgo quem criava e organizava o cosmos, inspirado por uma ordem matemática (Timeu). Na tradição judaico-cristã, Deus criou o melhor dos mundos com o poder da sua Palavra – “Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou ...” (Gênesis 2, 2). No entanto, com a Nova Cosmologia que surgiu depois, com a física moderna, a teoria do “Big Bang” tem sido a mais prevalente. Segundo ela, a grande explosão corresponde à origem do cosmos que, na sua fase embrionária havia se densificado e aquecido. Também segundo ela, o cosmos continua a se expandir constantemente. É dinâmico, isto é, encontra-se em contínua criação. À luz dessa teoria podemos contemplar a ação de Deus que determinou aquela explosão
Foi essa conclusão que levou o Papa Pio XII a afirmar na seção 44 do seu discurso à Academia Pontifícia de Ciências intitulado “As Provas da Existência de Deus à Luz das Modernas Ciências Naturais”: “. . . Com o mesmo olhar claro e crítico, com o qual a mente humana iluminada examina e julga os fatos, percebe e reconhece a obra da onipotência criadora cujo poder, movido pelo poderoso “fiat”, pronunciado bilhões de anos atrás pelo Espírito Criador, dispersou-se por todo o universo, chamou a matéria à existência, mediante um gesto de amor generoso, numa eclosão de energia. De fato, parece que a ciência do dia de hoje, arrojando-se com um passo que atravessa milhões de séculos atrás, conseguiu testemunhar o “fiat luz” primordial, pronunciado no momento em que, juntamente com a matéria, um mar de luz e radiação, surgido do nada, dividiu as partículas dos elementos químicos, formando milhões de galáxias.” A partir da Nova Cosmologia iniciada com o Big Bang, nós, Irmãs e Afiliados e os jovens, estamos sendo chamados a nos conscientizarmos da beleza inicial da criação e a promover e proteger o cosmos de acordo com os planos de Deus. Somos chamados a dar continuidade à mesma herança de São Francisco que, ao cantar e louvar a criação, vislumbrou as maravilhas do Criador nas suas criaturas, chamando a humanidade a tornar o universo um cântico de ação de graças. É esta, para nós, a Nova Cosmologia, uma dimensão pela qual podemos sempre reconhecer a obra criadora de Deus.
Assim, podemos cantar: “Pelos céus diante de Ti, pelo seu esplendor e majestade, pelo infinitamente grandioso e pelo infinitamente pequeno, pelo firmamento que é o teu pálio estelar, e pelo Irmão Sol, quero gritar: ‘Meus Deus, Tu és o Altíssimo, Tu és o maravilhoso Deus vivo, o eterno Senhor presente na inteira criação’!”
Afiliada Leah Curtin
Como tentar explicar a Nova Cosmologia num breve artigo é uma tarefa um tanto desalentadora, convém começar por aquilo que nos é mais familiar: as ciências e as Escrituras. Começando pelas ciências que abriram uma nova era de questionamentos, temos a descoberta fundamental do físico Albert Einstein de que minúsculas quantias de matéria podem ser convertidas em imensas quantidades de energia, um conceito muito radical em 1905 mas, até então, bastante positivo. Depois, um contemporâneo de Einstein, o físico John Stuart Bell, descobriu a unidade do mundo sub-atômico ao demonstrar que tudo o que existe é composto pelos mesmos elementos: átomos, partículas sub-atômicas, etc. Isso não é demasiado estranho pois somos conscientes, pelo menos vagamente, da existência dos átomos, já que eles podem ser divididos em reatores especiais para criar eletricidade ... ou bombas! Pensando bem, o Corpo Místico não é somente um conceito teológico: é algo real! “Eu sou a videira e vós sois os ramos” (João 15, 5), e “O que fizerdes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mateus 25, 40) Jesus nos disse de muitas maneiras que todos somos um, mas não o compreendemos! Achamos que Ele falava em termos espirituais, referindo-se aos pecadores, publicanos e coletores de impostos, aqueles em cuja companhia Ele costumava andar. E as coisas foram ficando cada vez mais estranhas! Um outro físico, David Bohm, que recebeu o prêmio Nobel, estendeu o significado do Teorema de Bell, apregoando que a totalidade da existência se encontra envolvida em cada fragmento do tempo e do espaço. Um só pensamento, objeto ou ação afeta todo o resto, ainda que minimamente, e tudo aquilo que você contempla é modificado pelo simples fato de ter sido contemplado por você! Essas afirmações não são meras teorias, são fatos constatados. Podemos ver, realmente, usando um microscópio eletrônico, as partículas de matéria mais infinitesimais. E podemos gravar a mudança dessas partículas depois de as termos olhado e verificar como elas revertem ao seu estado anterior quando ninguém as está olhando. O próprio pensamento é enrgia, e também ele afeta o mundo ao nosso redor, efetivamente anulando nossas velhas categorias da “objetividade absoluta” e do “meramente subjetivo”.
A maior parte dos descobridores da “nova ciência” teriam preferido que as coisas fossem diferentes e, sem nenhum exagero, a reação ao choque causado por essas descobertas, é espantosa! Por exemplo, sabemos agora que vivemos num mundo de absoluta união e intimidade ... o que parece ser bastante inócuo, mas essa idéia em si, é extraordinária! Na unidade absoluta do universo, não há distinção entre a matéria e o espírito. Não há nada superior ou inferior e expressões como “o interior” e “o exterior” são limitações artificiais, pois as exclusões implícitas não fazem sentido nenhum!
Junto à nossa mãe, a Terra
Comunidade de Casetta Nova, Frascati, Itália
Todos os anos contemplamos maravilhadas a generosidade do terreno ao redor da nossa casa. Seguindo o curso natural das estações do ano, nosso jardim produz os legumes, as verduras e a fruta que acabam surgindo na nossa mesa. Partilhamos a colheita com nossos vizinhos, com os pobres e com as pessoas que vêm nos visitar. Esses frutos nos ajudam a compreender a importância de um relacionamento simples com a Terra, respeitando os ritmos e ciclos naturais da existência, que requerem esperarmos que eles amadureçam, que sejamos pacientes quando devemos enfrentar circunstâncias imprevistas como tempestades de granizo, fortes chuvas ou ventos. Esses ciclos geram dentro de nós uma atitude de alegria pelo ressurgir do sol que, com o seu calor, faz com que as plantas cresçam, brotem, floresçam e frutifiquem. Para todas nós, aqui em Casetta Nova, essas experiências são importantes não só porque fazem parte do nosso cotidiano e das obras de nossas mãos, mas também enquanto oração, contemplação, gratidão e discernimento de novas opções. Alguns anos atrás, tivemos a idéia de abrir as portas de nossa casa aos jovens que queriam trabalhar conosco na colheita de azeitonas. Essa iniciativa que reúne uma oportunidade de trabalho a momentos de partilha de experiências e oração conjunta para exprimirmos nossa gratidão a Deus pelos dons da terra, “deram fruto” imediato, de várias maneiras. As jovens comentaram: “Apreciei os momentos de silêncio em que, concentrada em realizar bem minha tarefa, consegui refletir sobre o pleno significado de um dia tão diferente do cotidiano e, talvez por isso mesmo, consegui saborear de maneira inusitada também os olhares e as risadas alegres das outras pessoas que trabalhavam comigo!” – Giada “Na sexta-feira em que chegamos, o céu estava nublado e fazia frio. Juntas, oramos pedindo a Deus que nos desse bom tempo no dia seguinte. O sábado amanheceu ensolarado e o céu estava límpido. Deus havia respondido nossas orações! Parece ser apenas um pequeno detalhe, mas para mim foi uma lição importante: ajudou-me a refletir sobre a necessidade de experimentar tanto o “bom tempo” como o “tempo ruim” na minha vida, e acolher o silêncio de Deus com paciência e os seus dons com gratidão." – Francesca “Não somente colhi azeitonas como também apreciei o senso de exaustão depois de trabalhar o dia inteiro. Apreciei o pôr-do-sol, a amizade entre nós e o bom sabor da autêntica comida que partilhamos. Foi concreta esta oportunidade de entrar novamente em contato com a beleza que vem das coisas simples da vida e dos relacionamentos.” – Daniela Como podemos não nos maravilhar com experiências tão naturais e ao mesmo tempo tão profundas, que nos fazem literalmente tocar com as próprias mãos e de toda a alma a terra que nos conecta à inteira criação! O Amor nos oferece uma nova visão com que descobrimos o precioso dom de cada coisa existente no universo: um modo antigo, mas sempre renovado, de sermos participantes da comunidade da vida. Copyright 2009 Franciscan Sisters of the Poor
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