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Advogar através das Áreas no Espírito da Bem-Aventurada Francisca “Enquanto pessoas que dão vida ao carisma da Bem-Aventurada Francisca, temos sempre sido defensoras e continuaremos dando voz aos sem voz . . .”
Queridas Irmãs e caros Afiliados, Em inglês o termo advogar é usado para expressar o ato de apoiar ou agir em defesa de uma causa ou pessoa. É a opção concreta que temos diante de nós com relação à Comunidade da Vida. Enquanto defensores em potencial, nos perguntamos: Como podemos verdadeiramente fazer uma contribuição para apoiar a causa da Comunidade da Vida? Leonardo Boff cita três expressões muito significativas da Carta da Terra em seu livro Ética e Eco-Espiritualidade (p. 32-35) sobre como podemos fazer isso. Precisamos cuidar da Comunidade da Vida de três maneiras: Com compreensão: evitando ações que imponham sofrimentos aos representantes da Comunidade da Vida; Com compaixão: somos chamados a respeitar a alteridade desses seres e a perceber um senso de solidariedade com eles Com amor: ino nosso comportamento devemos cultivar a força da atração, união e transfiguração que parte de Deus e que levou São Francisco a uma contemplação mais pura da irmandade sem limites nem fronteiras. Aprofundar nossa Compreensão do Viver em Sintonia com a Comunidade da Vida Já quase chegamos ao final de um ano durante o qual, através destas páginas, procuramos aprofundar nossa compreensão daquilo que significa viver em sintonia e em conexão com a “Comunidade da Vida”. Mas uma questão persiste para respondermos: O que vamos fazer com essa nova consciência de ser parte integrante não só da espécie humana, como também da inteira criação? Para qual ação concreta essa consciência está nos chamando? Neste número, vocês irão ler sobre apenas algumas das ações concretas que estão sendo realizadas pelas nossas próprias Irmãs, em nome de Jesus:
Enquanto pessoas que dão vida ao carisma da Bem-Aventurada Francisca, temos sempre sido defensoras e continuaremos dando voz aos sem voz, juntamente com todas as pessoas de boa vontade. ir. Tiziana Merletti, sfp
Falar pelos Pobres Trabalhando com Eles “Para Gerar Compaixão e Esperança na Comunidade da Vida” Irmã Carmelina Di Bella, SFP
Enquanto filha de Madre Francisca Schervier, assumo vários ministérios no Senegal, junto à Caritas, à paróquia e ao movimento em prol da mulher, dos doentes e dos pobres, tanto cristãos quanto muçulmanos. É em espírito de simplicidade que me envolvo em todos esses ministérios, ouvindo aqueles a quem procuro servir ou que vêm me procurar. O diálogo e o trabalho com os pobres requer a capacidade de ouvi-los. Mas para saber ouvir precisamos primeiro e antes de tudo, ter fé. Homens e mulheres não deveriam ser deixados sozinhos. A solidão não é uma coisa boa. E não é somente a questão da vida de casal. Fomos criados para acolher sem fim e por toda a eternidade, mas vivemos como se estivéssemos aguardando ser completados por outra pessoa. Em particular, ouvir ao partilhar sempre faz nascer em mim possibilidades inexploradas de descoberta, enquanto vou adivinhando e desenvolvendo meios de conviver com os pobres, com harmonia.
A Igreja nos diz que somos como uma cítara na qual o Espírito Santo toca a sua música: quanto mais procuramos ouvir, mais bonito é o som que sai das nossas cordas. O desafio para dialogar com os pobres está em ouvi-los. O Evangelho conhece bem esse desafio. Precisamos ouvir a Palavra que insistentemente nos lembra que devemos ouvir os pobres. Geralmente, os pobres não têm muito para me contar, nem para me ensinar. Mas quando os ouço, meu coração cresce numa nova dimensão. Torna-se mais delicado e faz-me sentir feliz com qualquer coisinha bela ou qualquer novidade, somente por ser algo que eu não a havia notado antes. Não é isso mesmo que no filme “O Oitavo Dia” faz o herói, Harry, se tornar “companheiro de um pobre”, capaz de ouvir a inocência do seu coração enquanto irmão?* Gerar esperança é também essa habilidade de ouvir enquanto se trabalha. É um empenho de partilha e criatividade que realmente nos propicia grandes alegrias com relação à riqueza da nossa diversidade – um empenho que nos permite agir com simplicidade e partilhar nossos dons, assim como o fizeram São Francisco e Madre Francisca. * O Oitavo Dia (Le huitième jour) é um filme francês sobre doenças mentais, Deus, e a natureza transformadora da amizade e do amor. Servir, defendendo os que não têm voz “Através da defesa de menores, estou vivendo o chamado do nosso Capítulo para gerar compaixão e esperança na comunidade da vida.” Irmã Arleen Bourquin, SFP
Minha definição pessoal da palavra “defender” inclui: “apoiar, solidarizar-se com alguém, e falar em nome de alguém” e, enquanto religiosa consagrada, inclui também “orar por alguém”. Parece que defender o próximo começou cedo na minha vida, mas foi mudando à medida que fui amadurecendo. Como a idade das crianças de segundo grau a quem dou aulas de religião, “orar por alguém” era um meio de solidarizar-me com o outro que desenvolvi no lar da minha família. Orar pelos amigos, parentes e animais de estimação que estavam doentes, ou pedir bênçãos indefinidas por eles, fazia parte do meu ritual cotidiano. Defender crianças continua sendo um elemento importante no meu ministério. Dois anos atrás, comecei a voluntariar como Curadora Especial Indicada pela Vara de Menores (Court Appointed Special Advocate – CASA). Durante o programa de treinamento exigido, foi com surpresa que fiquei sabendo que até o Século XX as crianças não tinham direitos nos Estados Unidos. O primeiro caso de abuso de menor foi processado sob a lei que proíbe a crueldade contra os animais! Casos de crianças vítimas de abuso, ou dependentes negligenciadas, são atualmente referidos aos Serviços de Proteção do Menor (Children Services), que podem ser julgados pela Vara Cível da Infância e da Juventude (Juvenile Court). O juiz ou magistrado poderá requerer que uma Guardiã CASA represente o melhor interesse do menor em nome dele, durante o processo (ad litem). Enquanto Guardiã Ad Litem, sou responsável por investigar tudo o que está acontecendo na vida daquela criança: sua situação escolar, seu atendimento em saúde, suas relações com os pais e outros parentes, etc. Devo preparar um relatório detalhado para o tribunal, identificando as preocupações e fazer recomendações. Uma das recomendações mais difíceis de assumir é a remoção de uma criança do seu próprio lar. Nos dois anos em que tenho voluntariado como Guardiã CASA, servi seis famílias, envolvendo um total de dezesseis crianças. Todos os pais com quem trabalhei amam seus filhos e apesar de eu dever me concentrar sobre o melhor interesse das crianças, no final das contas, seus pais acabavam sentindo o meu trabalho como um apoio também para eles. Enquanto Irmã Franciscana dos Pobres, meu ministério como Guardiã CASA significa que devo me colocar ao lado dos pequeninos de Deus e falar em nome deles porque não têm voz própria, seja devido à pouca idade, seja por estarem com medo. No mundo de hoje, a vida chega a dificultar aos genitores serem bons pais, devido à falta de moradia, à perda do emprego, à compulsão pelas drogas e à gravidez entre menores, por exemplo. Mas essa lista poderia ser ainda mais longa. Certa mãe comprou um caríssimo par de botas de luta-livre de camurça, apesar de ter muito pouca comida em casa; enquanto que outra continua mudando de um lugar para outro com os filhos por não terem moradia fixa. Minha experiência tem sido, primariamente, defender crianças negligenciadas, embora muitas vezes pelo comportamento das mesmas e pelas conversas que tive com elas cheguei a suspeitar que havia segredos de família que as crianças temiam revelar. Enquanto Irmã Franciscana dos Pobres, meu ministério como Guardiã CASA significa que devo me colocar ao lado dos pequeninos de Deus e falar em nome deles porque não têm voz própria, seja devido à pouca idade, seja por estarem com medo. É óbvio para mim que a maioria dos pais são boas pessoas que se vêem pegos em circunstâncias adversas, mas que com a devida assistência conseguem superar obstáculos que pareciam impossíveis para eles e assim criar novas possibilidades para seus filhos. Através da defesa de menores, estou vivendo o chamado do nosso Capítulo para gerar compaixão e esperança na comunidade da vida. [Photographer: AL Minor] Defesa Ambiental: mudar as políticas públicas e conscientizar “ECada um e cada uma de nós pode e deve contribuir com ações conscientes para que a nossa mãe Terra seja um lugar habitável, humano e belo.” Irma Maria Lúcia de Oliveira, IFP Quando participamos de um grupo em defesa de uma causa, nossas energias se renovam e trabalhamos com gosto. No ano passado ingressei no “Cerrado/CRB”, um grupo de religiosos e leigos organizado pela Conferência dos Religiosos do Brasil. Nosso objetivo é defender o Cerrado, o segundo maior ecossistema do Brasil. Com esse projeto queremos ajudar a desenvolver uma experiência espiritual e ecológica, conscientizando as pessoas sobre a importância da sua preservação. Denunciamos a degradação da sua vegetação, pois suas árvores estão sendo arrancadas para fazer carvão e para a criação bovina, ou o plantio de monoculturas. Hoje, o desmatamento no cerrado é duas vezes maior do que o da Amazônia. Os principais rios brasileiros nascem e crescem no Cerrado. A chuva e os rios no Brasil Central sãos vitais para a matriz energética brasileira, pois 95% dos brasileiros dependem da energia elétrica que é gerada, ao menos em parte, com águas do Cerrado A biodiversidade do Cerrado do Planalto Central e da Caatinga do Nordeste – é sem igual no mundo. Espécies ameaçadas pela devastação da Mata Atlântica, sobrevivem em número maior no Cerrado. Se o Cerrado e a Caatinga entrarem em colapso, os outros ecossistemas também estarão ameaçados. Estima-se a existência de pelo menos 25 mil comunidades locais de pequenos agricultores, extrativistas e povos indígenas, que dependem dos recursos naturais desses biomas.
As Ações Concretas que Assumimos para Proteger e Preservar Nossa Mãe Terra • Em 11 de setembro, celebramos o Dia Nacional do Cerrado na praça universitária, onde foram realizadas várias atividades e eventos culturais. Nosso grupo encarregou-se da campanha de abaixo-assinado em suporte à proposta de emenda constitucional de Pedro Wilson, que já deveria ter entrado na pauta de votação do plenário da Câmara dos Deputados. Mas até hoje os políticos não deixaram esse projeto entrar na pauta do dia porque são grandes fazendeiros preocupados apenas em ganhar dinheiro com a criação de gado e o lucrativo plantio de soja e cana. • Nosso grupo já elaborou duas cartilhas. A primeira, “Cerrado, o Jardim de Deus”, contém fundamentos científicos e bíblicos em linguagem popular, e propõe ações concretas para o cuidado do meio ambiente no dia a dia. Estamos agora preparando outra, sobre a reciclagem do lixo. Temos nos articulado com indivíduos e grupos da comunidade preocupados com o meio ambiente – mulheres, homens, crianças e jovens – a quem distribuímos as cartilhas, enquanto procuramos parcerias e ajuda financeira para continuar a publicá-las. Enquanto Irmãs Franciscanas dos Pobres, nos propusemos a gerar compaixão e esperança na comunidade da vida, pois vivemos num mundo onde impera o egoísmo, a ambição a luta pelo “ter e poder”. Hoje, mais do que nunca, temos que encarnar esses valores e transbordá-los em nossas ações, porque o mundo não aguenta mais esse tanto falar e tão pouco agir. Cada um e cada uma de nós pode e deve contribuir com ações conscientes para que a nossa mãe Terra seja um lugar habitável, humano e belo.
Toda Pessoa Tem o Direito de Recomeçar
Ir. Laura Viti com alguns dos residentes e voluntários na Casa di Accoglienza
Ir. Laura Viti, SFP Hospital Psiquiátrico Judiciário. Há seis deles na Itália. Indivíduos que são mandados para lá são doentes mentais que cometeram crimes mas que não são considerados culpados devido às suas condições mentais. A lei italiana aplica a eles uma “medida de segurança” que consiste em dois anos de reclusão para crimes menores ou de cinco a dez anos para crimes mais graves (tentativa de assassinato ou assassinato). Normalmente, a “medida de segurança” consiste em admitir esses indivíduos num Hospital Psiquiátrico Judiciário (HPJ).
O propósito do HPJ é facilitar a cura de pacientes mentais, mas na realidade é um local onde a cura não tem como acontecer. A comida é insuficiente, não há roupas adequadas, os medicamentos são escassos e é comum aos reclusos perderem a própria dignidade. Às vezes parece que ninguém cuida deles, e correm o risco de serem abandonados no sistema, sem escapatória. Enquanto Irmãs Franciscanas dos Pobres, juntamente com o pessoal e os voluntários, temos tentado preparar o reinserimento desses pacientes no mundo de fora, restaurando a sua dignidade e os direitos que possuem enquanto cidadãos. A História de Paolo A equipe interna do hospital oferece estímulos positivos, mas toda vez que contactamos serviços fora do hospital a fim de verificar qual seria o melhor modo para um paciente poder reinserir-se no mundo, damos com a cara na parede. Compreendemos que a assistência social que deveria cuidar do caso de Paolo o considera como alguém com um passado negativo. Não têm interesse na sua condição atual e continuam protelando cuidar dele, sem procurar uma solução realista. Mobilizamos muita gente em favor de Paolo. Procuramos uma comunidade que estivesse disposta a acolhê-lo e chegamos a envolver o juiz, solicitando assistência social para ele. Tanto os funcionários como os voluntários acreditam que Paolo tenha o direito e a habilidade de recomeçar. Infelizmente para ele, sua longa espera até o dia de hoje ainda não chegou ao fim. Nosso amigo continua à espera, depois de quatro anos, e logo agora tudo foi suspendido. No entanto, o nosso “estar com ele” já constitui um novo início. Pelo menos foi isso o que ele nos escreveu depois de ter passado um dia fora do hospital: “Cara Ir. Laura, São 8 horas da noite e estou pensando no dia que se passou. Foi realmente ótimo, quase “anormal” viver simplesmente, sem nenhuma preocupação no mundo, mas especialmente compreender que fui capaz de fazer isso com a mente clara. Para muitos isso poderia parecer infantil, mas dentro de mim mesmo estou experimentando as situações e as emoções assim como elas são, sem a ajuda de substâncias artificiais e destrutivas e não é fácil . . . A vida diária não é agradável, mas pelo menos me permite pensar, reviver meu passado e aprender para o futuro . . . A caminhada adiante nunca se acabará para mim se eu quiser continuar vivendo de maneira saudável e respeitosa. É por isso que o empenho, o respeito e a consciência serão os instrumentos que usarei para voltar a ser o Paolo que conheci tantos anos atrás! Termino elogiando aqueles que, como a senhora, me ajudaram a me levantar novamente e têm uma idéia de tudo aquilo por que passei em minha vida. Muito obrigado .” Nosso empenho enquanto Irmãs Franciscanas dos Pobres é reafirmar insistentemente que cada indivíduo tem o direito de recomeçar e de ser curado para que a compaixão e a esperança possam ser vivas na comunidade da vida!
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